Crescer até agora era romper o fim do mundo
este corpo, sua pouca duração convertida em um olhar tão grande
que imaginar além dos campos
em nada poderia ser profundo.
Possuir ou ser possuído pela língua?
Sim, esta relação de força alguma
tão provisória quanto o tempo, que é o corpo encolhido entre as comissuras da voz,
nada mais,
a crescer e a retirar da terra a sombra bastante para desdobrar o silêncio.
A vida passava, ainda assim, e o que sobravam eram músculos longínquos,
a permanência do som da voz quebrando-se entre as paredes da cabeça;
mãos retalhadas de tempo,
um dom estranho de durar ao longe.
Lembrar assim era crescer para dentro da própria palavra que entalhava as horas.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
p.s. #1
Plano secreto. Como quem retorna do vazio e a calma das mãos de quem ama, ainda. Como a calma secreta dos cães policiais que andam, discutindo, tendo, volúveis. Um filho nas ruas, perdido, num estranho paralelismo com a vida – a sintaxe enlouquecida de antigamente. Escrever, como nunca tivesse sido. Ser sensível ainda, através de tão pouco, entre cães que devoram, ou fugir como os lagartos; e como dizer não é nada, encerrar brevemente. Assim acordou C, emergindo de outro parágrafo onírico. Olhou para as paredes do quarto como sempre, e através dos anos um olho instalou-se rapidamente diante de sua memória. Pensou no sonho enlouquecido que a devolvia agora, ironicamente ao despertar do corpo, com restos claro sombrios da noite. Era cedo ainda quando – e era sempre, porque a memória era a primeira a fugir de volta pra dentro da noite, e salvá-la nunca havia estado tão plenamente em seu significado, como sentia já ao precisar a formulação de determinadas palavras, adentro o cérebro mentais, com que se vestia para começar outra manhã. Mas era inútil. O mistério maior de continuar fluindo uma existência mecânica, rara, hostil não só lhe escapava, como deixava rastros evidentes demais, claros, e principalmente confusos que lhe permitiam, antes, favoreciam à sua própria existência, nos limites do corpo e da ação, superar tais palavras com que acreditava agora se envolver, poema, problema insolúvel diante do mistério, dois espelhos se olhando. Um único parágrafo antes de tomar o primeiro café, quando C podia confirmar que suas atividades orgânicas prosseguiam, funcionárias, a levar também a ele adiante. Voltar à noite, à pergunta fundamental era improvável, e podia até sorrir – talvez ao cair da trigésima frase.
Última deriva de C pela noite. Está sentado em algum bar do centro folheando um copo de conhaque – a cena pode se passar também em qualquer biboca do interior; ouvem-se vozes espaçadas, donde se desprendem os odores do álcool formando uma atmosfera baça; risos seminus e galhofas obscenas rodeiam. Pode estar acompanhado por uma das sombras, percebe com lentidão a proximidade de um corpo, lentidão era a palavra que lhe aguardava, ele sabia, como sabia que o tempo se fraturava através das imagens quando tais meneios podiam já estar debruçados em outra mesa, onde certamente caía uma gorjeta mais farta, ou ainda dentro dessa imagem que tinha agora diante de si, com a qual testavam aéreas suas mãos desalinhadas de todo movimento. Ao pensar nisso C começa a perceber uma música de engrenagens aparentemente soltas, algo como o mecanismo lírico evoluindo, encaixa tais palavras, desenvolvendo-se no ar uma pequena explosão que faz o som sair de dentro do som, soturno, vai encaixando palavras e enrubescendo por um sangue ancestral a se alastrar no ouvido, suas mãos tremem anunciando pelo corpo como que um deboche da solidão que o acompanha ao redor, pelas mesas as minúsculas pessoas umidecidas lentamente pela atmosfera entrechocando os fragmentos de sua própria embriaguez. Se dá conta que o avançar da música é o que desfecha dentro de seu peito cada uma das imagens que vão escapando, por milagre, reflete, à própria reflexão que espera envolvê-lo no fenômeno. Nunca estivera tão perdido nos ouvidos, surpreendendo agora a voz familiar de Z e L flexionando a canção – toda sua origem pressionada por seus dedos, rumor dos séculos feito um horizonte caído em pausa – marcando no canto geral, como lhe dissera G certa vez, ateando fogo à melancolia, pensava agora. E mergulhado na saída do esquecimento, atirado pela música afora, já não poderia saber desde quando ouvia, se era ali, agora, numa biboca do centro ou do interior, ou se viera antes e já consigo ao atravessar os anos misteriosamente para vir embocar entre um livro ou um conhaque, mistura dos dois dentro de seu olho, atravessá-lo, traindo toda visão, a abandonar lentamente a beleza nessa eternidade de estar sempre ouvindo, o enorme silêncio de não sabê-lo e ser fulminado ao descobri-lo –
, a lentidão especifica de estar ainda na rua A, sem o menor indício da fuga que o amor proporcionaria em tanto asfalto, não podia burlar a luz, o pensamento vago era o mundo a esperar lá fora, mistério e problema, ou ao contrário. Tornar o começo visível, organizar do caos a voz, abandonar o corpo ao azar e atravessar a cidade, os quintais baldios, a rua A, o sexo de todas as coisas escondidas detrás da imagem, meio conhaque a evocar do sangue uma primeira cumplicidade perdida entre as pernas e as mesas. A dor suspendia a única explicação através da noite dentro do dia, e C caminhava a passos indivisíveis já dentro do fim. Começá-lo era já o pranto inaugural de uma criança, presença excessiva e precoce pesando sobre o mundo, interminável, ínfimo. Sem saber se já estava fora da palavra que havia aguardado C pela noite, atravessando sempre, pensou numa estranha terceira pessoa, na dor que supostamente envolvia-lhe as mãos usurpando de seu cérebro toda a calma, uma rua atravessada por duas vozes, tristes, vagarosas, amantes lascivas a chamarem-se para fora do exílio, um olhar trazendo, por cima da voz, a fuga da palavra amorosa, pergunta, a palavra dando sobre a luz, eco, baldias putas rindo de escárnio e adoçando misteriosamente o percurso do tempo sobre seu corpo. “A gente nunca acaba de ler, ainda que os livros se acabem, assim como a gente nunca acaba de viver, ainda que a morte seja um fato certo”. Rindo e dizendo, assassinas*. Pensou C que a música nunca deixaria de percorrer, e através dela a poesia, se se deslocasse com o máximo de lenta atenção por todas as pedras da rua.
Como persistir entre a realidade e a ficção que dela derruímos fatos sem linguagem perdendo pela boca adentro a superfície de achar-se e durar: última deriva. A mais próxima. Entre a vida que desperta por nós, falavam, e nós mesmos, intermediários, protótipos, a dor que era preciso suspender ligeiramente, e ouviam, secretos. Breve, o pensamento diante do plano diagonal da visão; insolúvel, a presença através da respiração contínua a verificar a morte, a roubar dela sua forma, ilusão durável ou pressentimento. Com atenção total C subia pelas pedras e pelos dias dentro da noite até esfriarem sob seus pés todos os nomes. Ao seu lado, Y acendia um cigarro e olhava de través pelos carros. Estavam sentados, conversavam, tentando enquadrar a vida em palavras precisas, ou a arte, e é claro, o nada nisso envolvido, a ponta de clareza da qual não fugiam, mesmo que o fizessem só pelo prazer do jogo, enquanto acalorasse o álcool ou se desfizesse no vento a sombra formada pelos dois na calçada. Haveria mesmo um plano em voltar secretamente, rompendo a luz com o próprio corpo, retomado de todo esquecimento? Ou a palavra? Escrever a centésima frase, ir além, lançar as mãos a uma pergunta, e ficar mudo de toda pausa. E recusar, como o mais difícil. Como persistir, dizia ainda a Y no começo, acordado, e Y aguardava através de seu cigarro, observando a imagem se perdendo do outro lado, se aproximando de seu ponto de fuga. Um ponto de inflexão na música brasileira, lembrava-se de G, o dizia a Y, o grande silêncio soprava ao redor do mundo a sua náusea aos homens, o garçom continuava trazendo a cerveja, rompendo o frio com as mãos, o fluxo do intestino, e Y respondia, sim, olhando a voz dentro da voz de Z, a poesia matemática do organismo, respondia sempre fumando, enquanto o a aparição do fogo fazia durar mais essa vida, e este olho que, sem nem atravessar, parou.
Variantes para enaltecer a criação: um silêncio colado no outro: e admitir a voz como o que há de mais plausível.
Última deriva de C pela noite. Está sentado em algum bar do centro folheando um copo de conhaque – a cena pode se passar também em qualquer biboca do interior; ouvem-se vozes espaçadas, donde se desprendem os odores do álcool formando uma atmosfera baça; risos seminus e galhofas obscenas rodeiam. Pode estar acompanhado por uma das sombras, percebe com lentidão a proximidade de um corpo, lentidão era a palavra que lhe aguardava, ele sabia, como sabia que o tempo se fraturava através das imagens quando tais meneios podiam já estar debruçados em outra mesa, onde certamente caía uma gorjeta mais farta, ou ainda dentro dessa imagem que tinha agora diante de si, com a qual testavam aéreas suas mãos desalinhadas de todo movimento. Ao pensar nisso C começa a perceber uma música de engrenagens aparentemente soltas, algo como o mecanismo lírico evoluindo, encaixa tais palavras, desenvolvendo-se no ar uma pequena explosão que faz o som sair de dentro do som, soturno, vai encaixando palavras e enrubescendo por um sangue ancestral a se alastrar no ouvido, suas mãos tremem anunciando pelo corpo como que um deboche da solidão que o acompanha ao redor, pelas mesas as minúsculas pessoas umidecidas lentamente pela atmosfera entrechocando os fragmentos de sua própria embriaguez. Se dá conta que o avançar da música é o que desfecha dentro de seu peito cada uma das imagens que vão escapando, por milagre, reflete, à própria reflexão que espera envolvê-lo no fenômeno. Nunca estivera tão perdido nos ouvidos, surpreendendo agora a voz familiar de Z e L flexionando a canção – toda sua origem pressionada por seus dedos, rumor dos séculos feito um horizonte caído em pausa – marcando no canto geral, como lhe dissera G certa vez, ateando fogo à melancolia, pensava agora. E mergulhado na saída do esquecimento, atirado pela música afora, já não poderia saber desde quando ouvia, se era ali, agora, numa biboca do centro ou do interior, ou se viera antes e já consigo ao atravessar os anos misteriosamente para vir embocar entre um livro ou um conhaque, mistura dos dois dentro de seu olho, atravessá-lo, traindo toda visão, a abandonar lentamente a beleza nessa eternidade de estar sempre ouvindo, o enorme silêncio de não sabê-lo e ser fulminado ao descobri-lo –
, a lentidão especifica de estar ainda na rua A, sem o menor indício da fuga que o amor proporcionaria em tanto asfalto, não podia burlar a luz, o pensamento vago era o mundo a esperar lá fora, mistério e problema, ou ao contrário. Tornar o começo visível, organizar do caos a voz, abandonar o corpo ao azar e atravessar a cidade, os quintais baldios, a rua A, o sexo de todas as coisas escondidas detrás da imagem, meio conhaque a evocar do sangue uma primeira cumplicidade perdida entre as pernas e as mesas. A dor suspendia a única explicação através da noite dentro do dia, e C caminhava a passos indivisíveis já dentro do fim. Começá-lo era já o pranto inaugural de uma criança, presença excessiva e precoce pesando sobre o mundo, interminável, ínfimo. Sem saber se já estava fora da palavra que havia aguardado C pela noite, atravessando sempre, pensou numa estranha terceira pessoa, na dor que supostamente envolvia-lhe as mãos usurpando de seu cérebro toda a calma, uma rua atravessada por duas vozes, tristes, vagarosas, amantes lascivas a chamarem-se para fora do exílio, um olhar trazendo, por cima da voz, a fuga da palavra amorosa, pergunta, a palavra dando sobre a luz, eco, baldias putas rindo de escárnio e adoçando misteriosamente o percurso do tempo sobre seu corpo. “A gente nunca acaba de ler, ainda que os livros se acabem, assim como a gente nunca acaba de viver, ainda que a morte seja um fato certo”. Rindo e dizendo, assassinas*. Pensou C que a música nunca deixaria de percorrer, e através dela a poesia, se se deslocasse com o máximo de lenta atenção por todas as pedras da rua.
Como persistir entre a realidade e a ficção que dela derruímos fatos sem linguagem perdendo pela boca adentro a superfície de achar-se e durar: última deriva. A mais próxima. Entre a vida que desperta por nós, falavam, e nós mesmos, intermediários, protótipos, a dor que era preciso suspender ligeiramente, e ouviam, secretos. Breve, o pensamento diante do plano diagonal da visão; insolúvel, a presença através da respiração contínua a verificar a morte, a roubar dela sua forma, ilusão durável ou pressentimento. Com atenção total C subia pelas pedras e pelos dias dentro da noite até esfriarem sob seus pés todos os nomes. Ao seu lado, Y acendia um cigarro e olhava de través pelos carros. Estavam sentados, conversavam, tentando enquadrar a vida em palavras precisas, ou a arte, e é claro, o nada nisso envolvido, a ponta de clareza da qual não fugiam, mesmo que o fizessem só pelo prazer do jogo, enquanto acalorasse o álcool ou se desfizesse no vento a sombra formada pelos dois na calçada. Haveria mesmo um plano em voltar secretamente, rompendo a luz com o próprio corpo, retomado de todo esquecimento? Ou a palavra? Escrever a centésima frase, ir além, lançar as mãos a uma pergunta, e ficar mudo de toda pausa. E recusar, como o mais difícil. Como persistir, dizia ainda a Y no começo, acordado, e Y aguardava através de seu cigarro, observando a imagem se perdendo do outro lado, se aproximando de seu ponto de fuga. Um ponto de inflexão na música brasileira, lembrava-se de G, o dizia a Y, o grande silêncio soprava ao redor do mundo a sua náusea aos homens, o garçom continuava trazendo a cerveja, rompendo o frio com as mãos, o fluxo do intestino, e Y respondia, sim, olhando a voz dentro da voz de Z, a poesia matemática do organismo, respondia sempre fumando, enquanto o a aparição do fogo fazia durar mais essa vida, e este olho que, sem nem atravessar, parou.
Variantes para enaltecer a criação: um silêncio colado no outro: e admitir a voz como o que há de mais plausível.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
ao cair a escuridão através da varanda aberta era quando, a palavra, voltando a suspender-se, se inclinava um pouco acima das mãos, juntando seu peso imenso ao espaço que ora retirava-se, mais além que os corpos, ora subia pela frase incógnita; a poesia sempre nascia escura, cinza quebrada cavando no ar o rompimento, breve estilhaço a deixar a imagem derruída, um pouco acima da cabeça na varanda muda; iniciar dentro do peso da escrita, como uma pequena vida a se dissolver nesta longíssima história, cisma tão antiga através do tema, era voltar à tona, um novo plano sobre a mesma pele; e a palavra olhando, interrompida, bruto animal a nascer antes da madrugada, a pressentir seu clamor inenarrável aconchegando-se sobre a varanda, aquela dança do espaço, retirar-se e ir, não menos longe que os próprios pés através dos anos.
era a imagem que voltava a ver, após o pano e a pausa −
era a imagem que voltava a ver, após o pano e a pausa −
1
Nunca mais escrever
Haver a voz tão longe
Quanto entender-se.
Atentar tão devagar à lembrança,
Eis o que mudou na casa,
De lugar
E tempos em tempos.
Assomar à vida, todos os dias
E todos os dias escrever
Que nunca é mais
Que nada.
2
O tempo da ausência goteja lentamente
Intumescendo planta
Que cresce
Para a morte,
Direto.
3
tão relapso era o caminho,
envolvê-lo era quase nada:
o mesmo caminho relapsamente se apaga
sobre a pele
Nunca mais escrever
Haver a voz tão longe
Quanto entender-se.
Atentar tão devagar à lembrança,
Eis o que mudou na casa,
De lugar
E tempos em tempos.
Assomar à vida, todos os dias
E todos os dias escrever
Que nunca é mais
Que nada.
2
O tempo da ausência goteja lentamente
Intumescendo planta
Que cresce
Para a morte,
Direto.
3
tão relapso era o caminho,
envolvê-lo era quase nada:
o mesmo caminho relapsamente se apaga
sobre a pele
aos cães
a luz incidiu primeiro dando à dor a guia
fez-se minimamente tanta e fez-se bruta
rompeu o chão da casa, alva
alva e única no desterro, próprio fogo e deserto,
a luz incidiu tremendo
de cada fio já solta a relva
repercutiram os animais deitando rastos de orvalho
e compôs-se novamente o caos da noite
na memória confundida a olhar o fogo
o pensamento devastava, ainda
um rosto se mexeu de leve pela cama
sobrava, magnífico,
um palmo acima, num tom, afora
na realidade menos úmida, egressa
eis que a luz caiu ébria pela porta
e a armada de cães, de leve
balançou a cabeça
fez-se minimamente tanta e fez-se bruta
rompeu o chão da casa, alva
alva e única no desterro, próprio fogo e deserto,
a luz incidiu tremendo
de cada fio já solta a relva
repercutiram os animais deitando rastos de orvalho
e compôs-se novamente o caos da noite
na memória confundida a olhar o fogo
o pensamento devastava, ainda
um rosto se mexeu de leve pela cama
sobrava, magnífico,
um palmo acima, num tom, afora
na realidade menos úmida, egressa
eis que a luz caiu ébria pela porta
e a armada de cães, de leve
balançou a cabeça
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