sábado, 14 de agosto de 2010

p. s. # 6

(Muita coisa transcorreu no silêncio que, durante duas semanas – uma já passada, outra por viver – se abateu sobre C, suas irmãs e seus pais. Uma palavra morreu, abortada na língua, trazendo consigo a morte provável do tempo sobre a origem desequilibrada dos corpos. Vários objetos foram sucessivamente perdidos, encontrados, desapareceram novamente, imóveis, entre os olhos desviados. Porções de pele, unhas, fios de cabelo, estes sim se perderam por completo. Loucos foram varridos, como varrer uma cidade solitária é sinistro, rindochorando com terra dentro da boca e flores antigas nascendo do umbigo; a água findava, lenta, inabordável. Muito se passava, a cada vez que C tentava ver em seus pais, suas irmãs, também quando C desistia de ver, rendido. O texto usava fones de ouvido, enormes, ridículos, para não quebrar-se. De modo que as paredes da casa vibravam. As janelas emitiam o som único de janelas uivando dentro da noite. A ausência inflada no espaço. Muitas coisas, tantas delas insuportáveis, no silêncio. Inapreensível. Como nada que se segue)

E viu com lucidez implacável que ele próprio estivera por sua vez na beirada de um poço escuro certa tarde (só pôde escapar, admitiu, graças a velocidade da frase), com corvos medianos sobrecirculando-lhe a cabeça, o que fazia refletir no topo do poço uma nuvem escura, como se possível fosse a vida através dessas horas, mais do que o horror a presença difusa do horror sobre tudo, uma elevada espreita a ser destruída, na eminência de se transformar em nós a natureza e a sua crise incalculável.

p. s. # 5

Já que havia chegado ao ponto de dar por encerrada a escrita, naquilo que roça, presumivelmente, a sua nota ativa e reconhecível, ocorreram a C, simetricamente contrárias à inspiração e à lembrança, duas coisas: encerrar equivaleria desde sempre (o que sabia lendo) à impossibilidade irrefutável de acabar o texto – fluxo mais adiante, dique abaixo do mar – e de oferecê-lo, pois. Por outro lado, era preciso, fazendo-se ao menos ativo a si mesmo, gastar conscienciosamente o lápis recém adquirido junto a um caderno de mão, tendo na ponta uma borracha (velocidade e clareza, nos dizia i.calvino conferencista), situação no mínimo emblemática, mas não, um lápis com borracha na ponta,e uma ponta, na outra. Bem entendido, completava o conjunto um estilete com corpo de metal que, vindo do futuro e perfilado junto ao lápis (o outro em ponta, terra e borracha) poderia ser preso industriosamente ao caderno por um elástico sobressalente, do qual nada então fora dito, como não viria a ser após o ponto orquestrado pelos assim postos instrumentos, finalizando o desfolhamento original do próprio caderno, o risco mínimo, máximo, o desaparecimento à espreita, este quadrúpede claudicante bordando a queda brusca do sentido e do primeiro parágrafo.

— Parece que ele move o texto a uma velocidade geológica – disse a gata schuman, ao que respondeu Y que nos movêssemos um pouco mais rápido, que milhas sobre a terra (thelonious na cacunda, evocava G) espraiadas num canto do olho em londres devastavam o silêncio, como a um grito de horror no meio da selva. Com os circuitos elétricos de seu cérebro de gata loucasensata ligados, pensou G se realmente seria viável retirar de seu personagem os movimentos e cargas energéticas a passar a outro plano, mais visível, secreto como as reviravoltas da dor e do olvido, arroubo lírico.
— Problemas do olvido e da distância – respondeu C.
— Não, do ouvido na distância, um imenso ruído – brincou a gata (Y já poderia imaginar, entre baforadas de sua charutela, o céu confuso rodeado de manchas que durante a queda controlada do avião que lhe trazia de volta das terras portuguesas assumiam as formas contritas de sua cidade, e pôde ver com total clareza os muros corroídos da cidade perdida de Outrora, onde nascera a gata schuman, onde thelonious corria em sua cacunda cor de cevada, como se corresse dentro da frase de um trompete).
— Imenso como se nos provocássemos – aderiu C – agitando as sombras que dormitam sobre as eras, separando a matéria de seu desaparecimento contínuo, ver tão fundo que ambos, na extremidade de uma corda impensavelmente quilométrica,
— Amarrados ao pescoço – diminuiu a gata.
— Um ponto ou uma ponta – pensou Y considerando que já era hora de aterrissar, enquadrando sobre sua visão a leitura corrente de tais gajos subterrâneos.

p. s. # 4

"vou me mudar para os meus
pés, de lá será mais fácil
fugir" A. Machado


T andava pelo metrô distribuindo os impactos de seu corpo, era o que C já sabia desde que ouvira falar da partida, essa distribuição que iria operar através do mapa a trajetória dessa irmã para sempre instalada na melhor parte de sua memória, e isso era enfrentar a morte em absoluto, donde se crispava o amor a entalhá-la, deusa noturna, era o que sentia lendo a existência de T, provocando-a ao extremo de sua própria vida. Era o reflexo ou sombra de nuvem, pensava C, essa mana ousada, atravessadora de limites; encostando a barriga mais perto ao fogo, manobrava lentamente a idéia de que os seus próprios passos presos ao través de suas canelas (momento lírico: homenagem choro para tumbas do bisavô Pingo, esse torto pagão) se inspiravam naqueles que acompanhavam T por suas incursões geográficas. Atrizproblema, imaginava C, enquanto apurava, dentro da imobilidade, o vapor dos olhos sobre a panela antiga, as forjadas mãos, deusa da beleza, peso e centro. Atrizvertigem, palavra pendendo das alturas, aderindo sobre a irmã dentro da iluminação exata, as marcações deste corpo a retirar densidade do espaço, descobrindo para fora o que insistia em permanecer, a gravidade além dos fatos, e depois decorando essa matéria. Uma passagem sutil, reconhecia C olhando a fuligem debaixo das unhas, o suspiro do fogo, a vã promessa, a fração depurada nas mesmas porções de tempo que afetavam sempre, como as sobras que esperavam o adormecido corpo, na convulsão da noite. Sobrando, dobrando. E como através do problema se apressava a vertigem, decidiu escrever a T uma carta, que no fim das palavras era apenas uma neblina, que C desejaria usar para cobrir o rosto, o frio e o tempo poderiam aderir à pele, para a irmã distendendo o espaço, curva onde a palavra mais difícil estaria oferecida.

p. s. # 3

a gata schuman, revirando o frontispício, trouxe enrolada na cauda cor de cevada uma imagem de lisboa, dizia, ignorando a falta de hífens não reais, calçacor, era o que roçava por seus óculos, a gata andava míope dos últimos acontecimentos, revirando suas latas, se esmerando na política, traficando queijos pela bagagem, gata andarilha, uma imagem que Y lhe enviara como um presente na ausência, a Casa Malta irradiada das sombras espirituosas que riam da própria realidade, era um riso com frescor, dizia Y na imagem e a gata sentia perpassarem-lhe o cérebro cargas de astúcia elétrica, definiria antes que felina, a gata se lembrava das igrejas semi-afundadas que visitara no rastro da cidade perdida de Outrora, thelonious monk na cacunda, algo como a revelação próxima de um segredo, tão complicado e selvagem que só caberia em sonhos, pensava C ao ouvir falar a gata, e lisboa se erguia agora minúscula como só poderia em arquivos de imagem (Y calculava com que tempo e distância estaria ele, agora, ancorado nas paredes do Castelo, afastado de uma paisagem dos muitos séculos),

não, dizia G olhando a imagem digitalizada, sem mexer em absoluto os lábios, enquanto Y, perto dalguma janela d’alma, postergava a fumaça de seu charuto – ou charutela, dizia-se, a partir da cidade de Outrora, obscurecida sempre, e saindo agora da matéria;

khalehb poderia cantar interminavelmente, pensou C ao lado de N, ao lado de Compay que enrolara por sua vez charutos de tabaco em cuba desde os nove, poderia fazer caber a sua voz dentro da ilha, o exílio e o reino, sobreveio a N no exato momento em que observava seu pai rir-se alegremente da mestiçagem das músicas latinoamericanas (o mesmo que dizer a áfrica ou a loucura árabe) e servindo-se um vinho chileno sob o sol escaldante das duas horas da tarde.

domingo, 8 de agosto de 2010

a teta

a mão que desenha tem detrás de si tais olhos
que em ponto fixo lhe transtornam
e lhe condenam.
como as mãos nas páginas viradas dum livro
(a mirada móvel, sua micro explosão de estrela)
configuram em ti partes dum exílio íntimo
que a mão no traço se desdobra.
fúria do silêncio, nome sem memória
a vibrar o arco e a duração calculados pelo mundo
seu pendor da alma trêmula a uma obscuridade mais intensa
ou vã loucura.
com tais pontos fixos se contém e despedaça a vida
e com tal malícia
que ela, em vãos, minúscula se conforma.
pai na sombra da loucura
essa terra para ser lida totalmente aberta
alude adiante teu desenho bruto
pai percorrendo adentro da teta.
como os olhos que enfim na dobra
ultrapassam a terra, o amor, a testa a mão.
o tempo se estilhaçava em si mesmo
e costurar a noite da cabeça
(que se espalhou de um olho só
na mínima parte, por dentro do tempo)
foi decompor um tão temível sonho
e dormir com tal arte por cima do monstro,
que a terra então foi abatida a ferro
e queimou-se o sangue por dentro da morada.
sobre o fogo então o pai falava,
e da tua voz sobrou no fim a água
que enxugou o nosso amor, e o nome
as formas brutas que desapareceram
a fundar a espera e a procura.