sábado, 14 de agosto de 2010

p. s. # 5

Já que havia chegado ao ponto de dar por encerrada a escrita, naquilo que roça, presumivelmente, a sua nota ativa e reconhecível, ocorreram a C, simetricamente contrárias à inspiração e à lembrança, duas coisas: encerrar equivaleria desde sempre (o que sabia lendo) à impossibilidade irrefutável de acabar o texto – fluxo mais adiante, dique abaixo do mar – e de oferecê-lo, pois. Por outro lado, era preciso, fazendo-se ao menos ativo a si mesmo, gastar conscienciosamente o lápis recém adquirido junto a um caderno de mão, tendo na ponta uma borracha (velocidade e clareza, nos dizia i.calvino conferencista), situação no mínimo emblemática, mas não, um lápis com borracha na ponta,e uma ponta, na outra. Bem entendido, completava o conjunto um estilete com corpo de metal que, vindo do futuro e perfilado junto ao lápis (o outro em ponta, terra e borracha) poderia ser preso industriosamente ao caderno por um elástico sobressalente, do qual nada então fora dito, como não viria a ser após o ponto orquestrado pelos assim postos instrumentos, finalizando o desfolhamento original do próprio caderno, o risco mínimo, máximo, o desaparecimento à espreita, este quadrúpede claudicante bordando a queda brusca do sentido e do primeiro parágrafo.

— Parece que ele move o texto a uma velocidade geológica – disse a gata schuman, ao que respondeu Y que nos movêssemos um pouco mais rápido, que milhas sobre a terra (thelonious na cacunda, evocava G) espraiadas num canto do olho em londres devastavam o silêncio, como a um grito de horror no meio da selva. Com os circuitos elétricos de seu cérebro de gata loucasensata ligados, pensou G se realmente seria viável retirar de seu personagem os movimentos e cargas energéticas a passar a outro plano, mais visível, secreto como as reviravoltas da dor e do olvido, arroubo lírico.
— Problemas do olvido e da distância – respondeu C.
— Não, do ouvido na distância, um imenso ruído – brincou a gata (Y já poderia imaginar, entre baforadas de sua charutela, o céu confuso rodeado de manchas que durante a queda controlada do avião que lhe trazia de volta das terras portuguesas assumiam as formas contritas de sua cidade, e pôde ver com total clareza os muros corroídos da cidade perdida de Outrora, onde nascera a gata schuman, onde thelonious corria em sua cacunda cor de cevada, como se corresse dentro da frase de um trompete).
— Imenso como se nos provocássemos – aderiu C – agitando as sombras que dormitam sobre as eras, separando a matéria de seu desaparecimento contínuo, ver tão fundo que ambos, na extremidade de uma corda impensavelmente quilométrica,
— Amarrados ao pescoço – diminuiu a gata.
— Um ponto ou uma ponta – pensou Y considerando que já era hora de aterrissar, enquadrando sobre sua visão a leitura corrente de tais gajos subterrâneos.

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