terça-feira, 28 de setembro de 2010
p. s. # 8
Sim, a gata sabia que nada do que estava se lendo na política reluzia aderindo aos olhos do que se chamava, por outro lado, o povo soberano caindo pelas próprias tabelas de pernas convulsas, e seu espírito se expandia, elétrico, ao ler as cifras desta realidade que escapava a G, gata serpenteante, com movimentos paradoxais de tão felinos nos olhos de G observando o cigarro a se extinguir, acompanhando os cúmulo-nimbos de seus pensamentos, tormenta caindo tão devagar que desprender-se da cabeça não constituía o enigma necessário da sua configuração, gata tumultuosa, mas a própria água impedida quimicamente de cair.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
p. s. # 7
é como decidir sentar-se um pouco, parar, é preciso dizer, uma vez sentado a condição melhora, regula-se a respiração por dentro, o vento por fora a dobrar o mistério, seus mil lados desfigurando, e ao contrário, um clássico do pensamento na contraluz, diria, estabelecendo um princípio de diálogo mas nem sequer é mais que o compasso da respiração, ainda é cedo pra caralho. pra cadência, respondia, a confundir o tempo verbal, a tormenta louca a dissipar seus ramos; ainda é breve, eu entendo, dizer é recuperá-la, os corredores extremos dentro do abatimento respirando-a contra o fôlego, provocativa. pronominal, respondia outra vez, a marcar o ritmo. nem sequer diálogo, ou microconvulsão de vozes, mas um ritmo começando a durar apesar de tudo: o dia inteiro pela frente, segunda-feira, pensou C ainda com hífen, e se levantou, em microsegundos de após e adiante, desviados agora ao plano secreto da retomada.
Através do abatimento, extremo, corremos
enquanto a razão dos homens
a desviar seus ritos, trazia
do horror à calma
olhos e mãos mais perdidos que a vida
e dentes a mastigá-la, convulsa, tecendo
ao descermos
dos nomes próprios à manhã exata e escura, que avança
e ao atravessarmos enfim o escurecimento
correndo, de júbilo com medo correndo
enquanto dormitam aos pés de tais homens suas crianças
e o turbilhão de palavras antigas nelas dormindo
ao pé dessa língua, em tempos, perdida, poema
irmão gêmeo a roubar-se da loucura
dissemos, cavando, descendo,
enquanto riu-se, sobre a comida que partimos
(e da calma à vigília), o problema:
poema correndo através da loucura de um dia
o dia fortuito de tempo descendo, à procura
o quanto
e abatidos e extremos
falando à memória mal nascida do rito
ao cavar, aguardando, calamos
trazendo (nelas, em sonhos, caindo)
o som que cada verso, ao deslocar-se
ao fundo, sem fúria,
perdia.
enquanto a razão dos homens
a desviar seus ritos, trazia
do horror à calma
olhos e mãos mais perdidos que a vida
e dentes a mastigá-la, convulsa, tecendo
ao descermos
dos nomes próprios à manhã exata e escura, que avança
e ao atravessarmos enfim o escurecimento
correndo, de júbilo com medo correndo
enquanto dormitam aos pés de tais homens suas crianças
e o turbilhão de palavras antigas nelas dormindo
ao pé dessa língua, em tempos, perdida, poema
irmão gêmeo a roubar-se da loucura
dissemos, cavando, descendo,
enquanto riu-se, sobre a comida que partimos
(e da calma à vigília), o problema:
poema correndo através da loucura de um dia
o dia fortuito de tempo descendo, à procura
o quanto
e abatidos e extremos
falando à memória mal nascida do rito
ao cavar, aguardando, calamos
trazendo (nelas, em sonhos, caindo)
o som que cada verso, ao deslocar-se
ao fundo, sem fúria,
perdia.
sábado, 14 de agosto de 2010
p. s. # 6
(Muita coisa transcorreu no silêncio que, durante duas semanas – uma já passada, outra por viver – se abateu sobre C, suas irmãs e seus pais. Uma palavra morreu, abortada na língua, trazendo consigo a morte provável do tempo sobre a origem desequilibrada dos corpos. Vários objetos foram sucessivamente perdidos, encontrados, desapareceram novamente, imóveis, entre os olhos desviados. Porções de pele, unhas, fios de cabelo, estes sim se perderam por completo. Loucos foram varridos, como varrer uma cidade solitária é sinistro, rindochorando com terra dentro da boca e flores antigas nascendo do umbigo; a água findava, lenta, inabordável. Muito se passava, a cada vez que C tentava ver em seus pais, suas irmãs, também quando C desistia de ver, rendido. O texto usava fones de ouvido, enormes, ridículos, para não quebrar-se. De modo que as paredes da casa vibravam. As janelas emitiam o som único de janelas uivando dentro da noite. A ausência inflada no espaço. Muitas coisas, tantas delas insuportáveis, no silêncio. Inapreensível. Como nada que se segue)
E viu com lucidez implacável que ele próprio estivera por sua vez na beirada de um poço escuro certa tarde (só pôde escapar, admitiu, graças a velocidade da frase), com corvos medianos sobrecirculando-lhe a cabeça, o que fazia refletir no topo do poço uma nuvem escura, como se possível fosse a vida através dessas horas, mais do que o horror a presença difusa do horror sobre tudo, uma elevada espreita a ser destruída, na eminência de se transformar em nós a natureza e a sua crise incalculável.
E viu com lucidez implacável que ele próprio estivera por sua vez na beirada de um poço escuro certa tarde (só pôde escapar, admitiu, graças a velocidade da frase), com corvos medianos sobrecirculando-lhe a cabeça, o que fazia refletir no topo do poço uma nuvem escura, como se possível fosse a vida através dessas horas, mais do que o horror a presença difusa do horror sobre tudo, uma elevada espreita a ser destruída, na eminência de se transformar em nós a natureza e a sua crise incalculável.
p. s. # 5
Já que havia chegado ao ponto de dar por encerrada a escrita, naquilo que roça, presumivelmente, a sua nota ativa e reconhecível, ocorreram a C, simetricamente contrárias à inspiração e à lembrança, duas coisas: encerrar equivaleria desde sempre (o que sabia lendo) à impossibilidade irrefutável de acabar o texto – fluxo mais adiante, dique abaixo do mar – e de oferecê-lo, pois. Por outro lado, era preciso, fazendo-se ao menos ativo a si mesmo, gastar conscienciosamente o lápis recém adquirido junto a um caderno de mão, tendo na ponta uma borracha (velocidade e clareza, nos dizia i.calvino conferencista), situação no mínimo emblemática, mas não, um lápis com borracha na ponta,e uma ponta, na outra. Bem entendido, completava o conjunto um estilete com corpo de metal que, vindo do futuro e perfilado junto ao lápis (o outro em ponta, terra e borracha) poderia ser preso industriosamente ao caderno por um elástico sobressalente, do qual nada então fora dito, como não viria a ser após o ponto orquestrado pelos assim postos instrumentos, finalizando o desfolhamento original do próprio caderno, o risco mínimo, máximo, o desaparecimento à espreita, este quadrúpede claudicante bordando a queda brusca do sentido e do primeiro parágrafo.
— Parece que ele move o texto a uma velocidade geológica – disse a gata schuman, ao que respondeu Y que nos movêssemos um pouco mais rápido, que milhas sobre a terra (thelonious na cacunda, evocava G) espraiadas num canto do olho em londres devastavam o silêncio, como a um grito de horror no meio da selva. Com os circuitos elétricos de seu cérebro de gata loucasensata ligados, pensou G se realmente seria viável retirar de seu personagem os movimentos e cargas energéticas a passar a outro plano, mais visível, secreto como as reviravoltas da dor e do olvido, arroubo lírico.
— Problemas do olvido e da distância – respondeu C.
— Não, do ouvido na distância, um imenso ruído – brincou a gata (Y já poderia imaginar, entre baforadas de sua charutela, o céu confuso rodeado de manchas que durante a queda controlada do avião que lhe trazia de volta das terras portuguesas assumiam as formas contritas de sua cidade, e pôde ver com total clareza os muros corroídos da cidade perdida de Outrora, onde nascera a gata schuman, onde thelonious corria em sua cacunda cor de cevada, como se corresse dentro da frase de um trompete).
— Imenso como se nos provocássemos – aderiu C – agitando as sombras que dormitam sobre as eras, separando a matéria de seu desaparecimento contínuo, ver tão fundo que ambos, na extremidade de uma corda impensavelmente quilométrica,
— Amarrados ao pescoço – diminuiu a gata.
— Um ponto ou uma ponta – pensou Y considerando que já era hora de aterrissar, enquadrando sobre sua visão a leitura corrente de tais gajos subterrâneos.
— Parece que ele move o texto a uma velocidade geológica – disse a gata schuman, ao que respondeu Y que nos movêssemos um pouco mais rápido, que milhas sobre a terra (thelonious na cacunda, evocava G) espraiadas num canto do olho em londres devastavam o silêncio, como a um grito de horror no meio da selva. Com os circuitos elétricos de seu cérebro de gata loucasensata ligados, pensou G se realmente seria viável retirar de seu personagem os movimentos e cargas energéticas a passar a outro plano, mais visível, secreto como as reviravoltas da dor e do olvido, arroubo lírico.
— Problemas do olvido e da distância – respondeu C.
— Não, do ouvido na distância, um imenso ruído – brincou a gata (Y já poderia imaginar, entre baforadas de sua charutela, o céu confuso rodeado de manchas que durante a queda controlada do avião que lhe trazia de volta das terras portuguesas assumiam as formas contritas de sua cidade, e pôde ver com total clareza os muros corroídos da cidade perdida de Outrora, onde nascera a gata schuman, onde thelonious corria em sua cacunda cor de cevada, como se corresse dentro da frase de um trompete).
— Imenso como se nos provocássemos – aderiu C – agitando as sombras que dormitam sobre as eras, separando a matéria de seu desaparecimento contínuo, ver tão fundo que ambos, na extremidade de uma corda impensavelmente quilométrica,
— Amarrados ao pescoço – diminuiu a gata.
— Um ponto ou uma ponta – pensou Y considerando que já era hora de aterrissar, enquadrando sobre sua visão a leitura corrente de tais gajos subterrâneos.
p. s. # 4
"vou me mudar para os meus
pés, de lá será mais fácil
fugir" A. Machado
T andava pelo metrô distribuindo os impactos de seu corpo, era o que C já sabia desde que ouvira falar da partida, essa distribuição que iria operar através do mapa a trajetória dessa irmã para sempre instalada na melhor parte de sua memória, e isso era enfrentar a morte em absoluto, donde se crispava o amor a entalhá-la, deusa noturna, era o que sentia lendo a existência de T, provocando-a ao extremo de sua própria vida. Era o reflexo ou sombra de nuvem, pensava C, essa mana ousada, atravessadora de limites; encostando a barriga mais perto ao fogo, manobrava lentamente a idéia de que os seus próprios passos presos ao través de suas canelas (momento lírico: homenagem choro para tumbas do bisavô Pingo, esse torto pagão) se inspiravam naqueles que acompanhavam T por suas incursões geográficas. Atrizproblema, imaginava C, enquanto apurava, dentro da imobilidade, o vapor dos olhos sobre a panela antiga, as forjadas mãos, deusa da beleza, peso e centro. Atrizvertigem, palavra pendendo das alturas, aderindo sobre a irmã dentro da iluminação exata, as marcações deste corpo a retirar densidade do espaço, descobrindo para fora o que insistia em permanecer, a gravidade além dos fatos, e depois decorando essa matéria. Uma passagem sutil, reconhecia C olhando a fuligem debaixo das unhas, o suspiro do fogo, a vã promessa, a fração depurada nas mesmas porções de tempo que afetavam sempre, como as sobras que esperavam o adormecido corpo, na convulsão da noite. Sobrando, dobrando. E como através do problema se apressava a vertigem, decidiu escrever a T uma carta, que no fim das palavras era apenas uma neblina, que C desejaria usar para cobrir o rosto, o frio e o tempo poderiam aderir à pele, para a irmã distendendo o espaço, curva onde a palavra mais difícil estaria oferecida.
pés, de lá será mais fácil
fugir" A. Machado
T andava pelo metrô distribuindo os impactos de seu corpo, era o que C já sabia desde que ouvira falar da partida, essa distribuição que iria operar através do mapa a trajetória dessa irmã para sempre instalada na melhor parte de sua memória, e isso era enfrentar a morte em absoluto, donde se crispava o amor a entalhá-la, deusa noturna, era o que sentia lendo a existência de T, provocando-a ao extremo de sua própria vida. Era o reflexo ou sombra de nuvem, pensava C, essa mana ousada, atravessadora de limites; encostando a barriga mais perto ao fogo, manobrava lentamente a idéia de que os seus próprios passos presos ao través de suas canelas (momento lírico: homenagem choro para tumbas do bisavô Pingo, esse torto pagão) se inspiravam naqueles que acompanhavam T por suas incursões geográficas. Atrizproblema, imaginava C, enquanto apurava, dentro da imobilidade, o vapor dos olhos sobre a panela antiga, as forjadas mãos, deusa da beleza, peso e centro. Atrizvertigem, palavra pendendo das alturas, aderindo sobre a irmã dentro da iluminação exata, as marcações deste corpo a retirar densidade do espaço, descobrindo para fora o que insistia em permanecer, a gravidade além dos fatos, e depois decorando essa matéria. Uma passagem sutil, reconhecia C olhando a fuligem debaixo das unhas, o suspiro do fogo, a vã promessa, a fração depurada nas mesmas porções de tempo que afetavam sempre, como as sobras que esperavam o adormecido corpo, na convulsão da noite. Sobrando, dobrando. E como através do problema se apressava a vertigem, decidiu escrever a T uma carta, que no fim das palavras era apenas uma neblina, que C desejaria usar para cobrir o rosto, o frio e o tempo poderiam aderir à pele, para a irmã distendendo o espaço, curva onde a palavra mais difícil estaria oferecida.
p. s. # 3
a gata schuman, revirando o frontispício, trouxe enrolada na cauda cor de cevada uma imagem de lisboa, dizia, ignorando a falta de hífens não reais, calçacor, era o que roçava por seus óculos, a gata andava míope dos últimos acontecimentos, revirando suas latas, se esmerando na política, traficando queijos pela bagagem, gata andarilha, uma imagem que Y lhe enviara como um presente na ausência, a Casa Malta irradiada das sombras espirituosas que riam da própria realidade, era um riso com frescor, dizia Y na imagem e a gata sentia perpassarem-lhe o cérebro cargas de astúcia elétrica, definiria antes que felina, a gata se lembrava das igrejas semi-afundadas que visitara no rastro da cidade perdida de Outrora, thelonious monk na cacunda, algo como a revelação próxima de um segredo, tão complicado e selvagem que só caberia em sonhos, pensava C ao ouvir falar a gata, e lisboa se erguia agora minúscula como só poderia em arquivos de imagem (Y calculava com que tempo e distância estaria ele, agora, ancorado nas paredes do Castelo, afastado de uma paisagem dos muitos séculos),
não, dizia G olhando a imagem digitalizada, sem mexer em absoluto os lábios, enquanto Y, perto dalguma janela d’alma, postergava a fumaça de seu charuto – ou charutela, dizia-se, a partir da cidade de Outrora, obscurecida sempre, e saindo agora da matéria;
khalehb poderia cantar interminavelmente, pensou C ao lado de N, ao lado de Compay que enrolara por sua vez charutos de tabaco em cuba desde os nove, poderia fazer caber a sua voz dentro da ilha, o exílio e o reino, sobreveio a N no exato momento em que observava seu pai rir-se alegremente da mestiçagem das músicas latinoamericanas (o mesmo que dizer a áfrica ou a loucura árabe) e servindo-se um vinho chileno sob o sol escaldante das duas horas da tarde.
não, dizia G olhando a imagem digitalizada, sem mexer em absoluto os lábios, enquanto Y, perto dalguma janela d’alma, postergava a fumaça de seu charuto – ou charutela, dizia-se, a partir da cidade de Outrora, obscurecida sempre, e saindo agora da matéria;
khalehb poderia cantar interminavelmente, pensou C ao lado de N, ao lado de Compay que enrolara por sua vez charutos de tabaco em cuba desde os nove, poderia fazer caber a sua voz dentro da ilha, o exílio e o reino, sobreveio a N no exato momento em que observava seu pai rir-se alegremente da mestiçagem das músicas latinoamericanas (o mesmo que dizer a áfrica ou a loucura árabe) e servindo-se um vinho chileno sob o sol escaldante das duas horas da tarde.
domingo, 8 de agosto de 2010
a teta
a mão que desenha tem detrás de si tais olhos
que em ponto fixo lhe transtornam
e lhe condenam.
como as mãos nas páginas viradas dum livro
(a mirada móvel, sua micro explosão de estrela)
configuram em ti partes dum exílio íntimo
que a mão no traço se desdobra.
fúria do silêncio, nome sem memória
a vibrar o arco e a duração calculados pelo mundo
seu pendor da alma trêmula a uma obscuridade mais intensa
ou vã loucura.
com tais pontos fixos se contém e despedaça a vida
e com tal malícia
que ela, em vãos, minúscula se conforma.
pai na sombra da loucura
essa terra para ser lida totalmente aberta
alude adiante teu desenho bruto
pai percorrendo adentro da teta.
como os olhos que enfim na dobra
ultrapassam a terra, o amor, a testa a mão.
o tempo se estilhaçava em si mesmo
e costurar a noite da cabeça
(que se espalhou de um olho só
na mínima parte, por dentro do tempo)
foi decompor um tão temível sonho
e dormir com tal arte por cima do monstro,
que a terra então foi abatida a ferro
e queimou-se o sangue por dentro da morada.
sobre o fogo então o pai falava,
e da tua voz sobrou no fim a água
que enxugou o nosso amor, e o nome
as formas brutas que desapareceram
a fundar a espera e a procura.
que em ponto fixo lhe transtornam
e lhe condenam.
como as mãos nas páginas viradas dum livro
(a mirada móvel, sua micro explosão de estrela)
configuram em ti partes dum exílio íntimo
que a mão no traço se desdobra.
fúria do silêncio, nome sem memória
a vibrar o arco e a duração calculados pelo mundo
seu pendor da alma trêmula a uma obscuridade mais intensa
ou vã loucura.
com tais pontos fixos se contém e despedaça a vida
e com tal malícia
que ela, em vãos, minúscula se conforma.
pai na sombra da loucura
essa terra para ser lida totalmente aberta
alude adiante teu desenho bruto
pai percorrendo adentro da teta.
como os olhos que enfim na dobra
ultrapassam a terra, o amor, a testa a mão.
o tempo se estilhaçava em si mesmo
e costurar a noite da cabeça
(que se espalhou de um olho só
na mínima parte, por dentro do tempo)
foi decompor um tão temível sonho
e dormir com tal arte por cima do monstro,
que a terra então foi abatida a ferro
e queimou-se o sangue por dentro da morada.
sobre o fogo então o pai falava,
e da tua voz sobrou no fim a água
que enxugou o nosso amor, e o nome
as formas brutas que desapareceram
a fundar a espera e a procura.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
p. s. # 2
O amor é uma torrente contínua, é o que diz a rimíni sofía; envolvidos no fascínio e terror do amor, fechados à contracapa do livro, impelidos à vida inconfessável que transparece em todos os gestos, e na ausência dos mesmos, o espaço vazio a cobrir o rosto que se deforma de dor ao suspender o passado, um palmo acima da cabeça, tormenta à espreita; onde as coisas cessam, começa o amor a retratar com seus tentáculos, mar à noite, à tarde todo o deserto – pois que apenas aparente o amor erigia a sua morada no seio da floresta, e chegava a viver disso, em fatos – mas sabia, diz um sempre ao outro, o amor não tem registro, não é abandonável, é ele que escolhe de repente se retirar, não antes disso – não, é o vermelho dentro do calor do olho no deserto, é toda a sede do mundo enlouquecendo a minha inteligência, amante do pensamento, que é toda a sua imagem, dominando, sua nota carregada no futuro, a construir sobre a pele sua atmosfera íntima, tramas que videntes poderiam vislumbrar, alheios, à toa, lhe dizia, às tonas, era a resposta louca de amor, a palavra corrompida do seu incêndio, como nada que atravessa a água, senão ela – dentro dos livros se preservam a dor dos personagens, sua magnífica beleza estirada ao sol, secando, queimando nossos dedos; sim, dizia C a N, sua torrente particular, a luz começa apenas a despontar de dentro da janela –
terça-feira, 1 de junho de 2010
A grande forja era o que alimentava
desde os arredores
as mãos dos homens, e animais entre dedos pendiam
com a mesma idade de olhar o fogo
com que fora se espalhando esta farsa antiga
um cheiro subia
visualmente, através da espera
quando as conversas e a música eram trançadas
devagar
desde os estertores da língua humana
que gracejava já de si, imensa, satisfazendo ânimos
e terminava
à força de se moldar as crinas, dentro da fuga espelhada
[no cozimento lento
desde os pormenores do mais tenro carneiro
à gula
descendo direto pela garganta a voz da noite
que vinha
no alongar dos anos, derrotar a inteligência
no momento em que esta se criava, aos vinhos
forcejando entre as pedras do crânio
e não dizer nada era voltar ao ponto em que as
mãos desciam, suavemente
entre o barro, circunflexas,
para esquecer, somente, o engodo
de estar ali descendo.
desde os arredores
as mãos dos homens, e animais entre dedos pendiam
com a mesma idade de olhar o fogo
com que fora se espalhando esta farsa antiga
um cheiro subia
visualmente, através da espera
quando as conversas e a música eram trançadas
devagar
desde os estertores da língua humana
que gracejava já de si, imensa, satisfazendo ânimos
e terminava
à força de se moldar as crinas, dentro da fuga espelhada
[no cozimento lento
desde os pormenores do mais tenro carneiro
à gula
descendo direto pela garganta a voz da noite
que vinha
no alongar dos anos, derrotar a inteligência
no momento em que esta se criava, aos vinhos
forcejando entre as pedras do crânio
e não dizer nada era voltar ao ponto em que as
mãos desciam, suavemente
entre o barro, circunflexas,
para esquecer, somente, o engodo
de estar ali descendo.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Crescer até agora era romper o fim do mundo
este corpo, sua pouca duração convertida em um olhar tão grande
que imaginar além dos campos
em nada poderia ser profundo.
Possuir ou ser possuído pela língua?
Sim, esta relação de força alguma
tão provisória quanto o tempo, que é o corpo encolhido entre as comissuras da voz,
nada mais,
a crescer e a retirar da terra a sombra bastante para desdobrar o silêncio.
A vida passava, ainda assim, e o que sobravam eram músculos longínquos,
a permanência do som da voz quebrando-se entre as paredes da cabeça;
mãos retalhadas de tempo,
um dom estranho de durar ao longe.
Lembrar assim era crescer para dentro da própria palavra que entalhava as horas.
este corpo, sua pouca duração convertida em um olhar tão grande
que imaginar além dos campos
em nada poderia ser profundo.
Possuir ou ser possuído pela língua?
Sim, esta relação de força alguma
tão provisória quanto o tempo, que é o corpo encolhido entre as comissuras da voz,
nada mais,
a crescer e a retirar da terra a sombra bastante para desdobrar o silêncio.
A vida passava, ainda assim, e o que sobravam eram músculos longínquos,
a permanência do som da voz quebrando-se entre as paredes da cabeça;
mãos retalhadas de tempo,
um dom estranho de durar ao longe.
Lembrar assim era crescer para dentro da própria palavra que entalhava as horas.
sábado, 15 de maio de 2010
p.s. #1
Plano secreto. Como quem retorna do vazio e a calma das mãos de quem ama, ainda. Como a calma secreta dos cães policiais que andam, discutindo, tendo, volúveis. Um filho nas ruas, perdido, num estranho paralelismo com a vida – a sintaxe enlouquecida de antigamente. Escrever, como nunca tivesse sido. Ser sensível ainda, através de tão pouco, entre cães que devoram, ou fugir como os lagartos; e como dizer não é nada, encerrar brevemente. Assim acordou C, emergindo de outro parágrafo onírico. Olhou para as paredes do quarto como sempre, e através dos anos um olho instalou-se rapidamente diante de sua memória. Pensou no sonho enlouquecido que a devolvia agora, ironicamente ao despertar do corpo, com restos claro sombrios da noite. Era cedo ainda quando – e era sempre, porque a memória era a primeira a fugir de volta pra dentro da noite, e salvá-la nunca havia estado tão plenamente em seu significado, como sentia já ao precisar a formulação de determinadas palavras, adentro o cérebro mentais, com que se vestia para começar outra manhã. Mas era inútil. O mistério maior de continuar fluindo uma existência mecânica, rara, hostil não só lhe escapava, como deixava rastros evidentes demais, claros, e principalmente confusos que lhe permitiam, antes, favoreciam à sua própria existência, nos limites do corpo e da ação, superar tais palavras com que acreditava agora se envolver, poema, problema insolúvel diante do mistério, dois espelhos se olhando. Um único parágrafo antes de tomar o primeiro café, quando C podia confirmar que suas atividades orgânicas prosseguiam, funcionárias, a levar também a ele adiante. Voltar à noite, à pergunta fundamental era improvável, e podia até sorrir – talvez ao cair da trigésima frase.
Última deriva de C pela noite. Está sentado em algum bar do centro folheando um copo de conhaque – a cena pode se passar também em qualquer biboca do interior; ouvem-se vozes espaçadas, donde se desprendem os odores do álcool formando uma atmosfera baça; risos seminus e galhofas obscenas rodeiam. Pode estar acompanhado por uma das sombras, percebe com lentidão a proximidade de um corpo, lentidão era a palavra que lhe aguardava, ele sabia, como sabia que o tempo se fraturava através das imagens quando tais meneios podiam já estar debruçados em outra mesa, onde certamente caía uma gorjeta mais farta, ou ainda dentro dessa imagem que tinha agora diante de si, com a qual testavam aéreas suas mãos desalinhadas de todo movimento. Ao pensar nisso C começa a perceber uma música de engrenagens aparentemente soltas, algo como o mecanismo lírico evoluindo, encaixa tais palavras, desenvolvendo-se no ar uma pequena explosão que faz o som sair de dentro do som, soturno, vai encaixando palavras e enrubescendo por um sangue ancestral a se alastrar no ouvido, suas mãos tremem anunciando pelo corpo como que um deboche da solidão que o acompanha ao redor, pelas mesas as minúsculas pessoas umidecidas lentamente pela atmosfera entrechocando os fragmentos de sua própria embriaguez. Se dá conta que o avançar da música é o que desfecha dentro de seu peito cada uma das imagens que vão escapando, por milagre, reflete, à própria reflexão que espera envolvê-lo no fenômeno. Nunca estivera tão perdido nos ouvidos, surpreendendo agora a voz familiar de Z e L flexionando a canção – toda sua origem pressionada por seus dedos, rumor dos séculos feito um horizonte caído em pausa – marcando no canto geral, como lhe dissera G certa vez, ateando fogo à melancolia, pensava agora. E mergulhado na saída do esquecimento, atirado pela música afora, já não poderia saber desde quando ouvia, se era ali, agora, numa biboca do centro ou do interior, ou se viera antes e já consigo ao atravessar os anos misteriosamente para vir embocar entre um livro ou um conhaque, mistura dos dois dentro de seu olho, atravessá-lo, traindo toda visão, a abandonar lentamente a beleza nessa eternidade de estar sempre ouvindo, o enorme silêncio de não sabê-lo e ser fulminado ao descobri-lo –
, a lentidão especifica de estar ainda na rua A, sem o menor indício da fuga que o amor proporcionaria em tanto asfalto, não podia burlar a luz, o pensamento vago era o mundo a esperar lá fora, mistério e problema, ou ao contrário. Tornar o começo visível, organizar do caos a voz, abandonar o corpo ao azar e atravessar a cidade, os quintais baldios, a rua A, o sexo de todas as coisas escondidas detrás da imagem, meio conhaque a evocar do sangue uma primeira cumplicidade perdida entre as pernas e as mesas. A dor suspendia a única explicação através da noite dentro do dia, e C caminhava a passos indivisíveis já dentro do fim. Começá-lo era já o pranto inaugural de uma criança, presença excessiva e precoce pesando sobre o mundo, interminável, ínfimo. Sem saber se já estava fora da palavra que havia aguardado C pela noite, atravessando sempre, pensou numa estranha terceira pessoa, na dor que supostamente envolvia-lhe as mãos usurpando de seu cérebro toda a calma, uma rua atravessada por duas vozes, tristes, vagarosas, amantes lascivas a chamarem-se para fora do exílio, um olhar trazendo, por cima da voz, a fuga da palavra amorosa, pergunta, a palavra dando sobre a luz, eco, baldias putas rindo de escárnio e adoçando misteriosamente o percurso do tempo sobre seu corpo. “A gente nunca acaba de ler, ainda que os livros se acabem, assim como a gente nunca acaba de viver, ainda que a morte seja um fato certo”. Rindo e dizendo, assassinas*. Pensou C que a música nunca deixaria de percorrer, e através dela a poesia, se se deslocasse com o máximo de lenta atenção por todas as pedras da rua.
Como persistir entre a realidade e a ficção que dela derruímos fatos sem linguagem perdendo pela boca adentro a superfície de achar-se e durar: última deriva. A mais próxima. Entre a vida que desperta por nós, falavam, e nós mesmos, intermediários, protótipos, a dor que era preciso suspender ligeiramente, e ouviam, secretos. Breve, o pensamento diante do plano diagonal da visão; insolúvel, a presença através da respiração contínua a verificar a morte, a roubar dela sua forma, ilusão durável ou pressentimento. Com atenção total C subia pelas pedras e pelos dias dentro da noite até esfriarem sob seus pés todos os nomes. Ao seu lado, Y acendia um cigarro e olhava de través pelos carros. Estavam sentados, conversavam, tentando enquadrar a vida em palavras precisas, ou a arte, e é claro, o nada nisso envolvido, a ponta de clareza da qual não fugiam, mesmo que o fizessem só pelo prazer do jogo, enquanto acalorasse o álcool ou se desfizesse no vento a sombra formada pelos dois na calçada. Haveria mesmo um plano em voltar secretamente, rompendo a luz com o próprio corpo, retomado de todo esquecimento? Ou a palavra? Escrever a centésima frase, ir além, lançar as mãos a uma pergunta, e ficar mudo de toda pausa. E recusar, como o mais difícil. Como persistir, dizia ainda a Y no começo, acordado, e Y aguardava através de seu cigarro, observando a imagem se perdendo do outro lado, se aproximando de seu ponto de fuga. Um ponto de inflexão na música brasileira, lembrava-se de G, o dizia a Y, o grande silêncio soprava ao redor do mundo a sua náusea aos homens, o garçom continuava trazendo a cerveja, rompendo o frio com as mãos, o fluxo do intestino, e Y respondia, sim, olhando a voz dentro da voz de Z, a poesia matemática do organismo, respondia sempre fumando, enquanto o a aparição do fogo fazia durar mais essa vida, e este olho que, sem nem atravessar, parou.
Variantes para enaltecer a criação: um silêncio colado no outro: e admitir a voz como o que há de mais plausível.
Última deriva de C pela noite. Está sentado em algum bar do centro folheando um copo de conhaque – a cena pode se passar também em qualquer biboca do interior; ouvem-se vozes espaçadas, donde se desprendem os odores do álcool formando uma atmosfera baça; risos seminus e galhofas obscenas rodeiam. Pode estar acompanhado por uma das sombras, percebe com lentidão a proximidade de um corpo, lentidão era a palavra que lhe aguardava, ele sabia, como sabia que o tempo se fraturava através das imagens quando tais meneios podiam já estar debruçados em outra mesa, onde certamente caía uma gorjeta mais farta, ou ainda dentro dessa imagem que tinha agora diante de si, com a qual testavam aéreas suas mãos desalinhadas de todo movimento. Ao pensar nisso C começa a perceber uma música de engrenagens aparentemente soltas, algo como o mecanismo lírico evoluindo, encaixa tais palavras, desenvolvendo-se no ar uma pequena explosão que faz o som sair de dentro do som, soturno, vai encaixando palavras e enrubescendo por um sangue ancestral a se alastrar no ouvido, suas mãos tremem anunciando pelo corpo como que um deboche da solidão que o acompanha ao redor, pelas mesas as minúsculas pessoas umidecidas lentamente pela atmosfera entrechocando os fragmentos de sua própria embriaguez. Se dá conta que o avançar da música é o que desfecha dentro de seu peito cada uma das imagens que vão escapando, por milagre, reflete, à própria reflexão que espera envolvê-lo no fenômeno. Nunca estivera tão perdido nos ouvidos, surpreendendo agora a voz familiar de Z e L flexionando a canção – toda sua origem pressionada por seus dedos, rumor dos séculos feito um horizonte caído em pausa – marcando no canto geral, como lhe dissera G certa vez, ateando fogo à melancolia, pensava agora. E mergulhado na saída do esquecimento, atirado pela música afora, já não poderia saber desde quando ouvia, se era ali, agora, numa biboca do centro ou do interior, ou se viera antes e já consigo ao atravessar os anos misteriosamente para vir embocar entre um livro ou um conhaque, mistura dos dois dentro de seu olho, atravessá-lo, traindo toda visão, a abandonar lentamente a beleza nessa eternidade de estar sempre ouvindo, o enorme silêncio de não sabê-lo e ser fulminado ao descobri-lo –
, a lentidão especifica de estar ainda na rua A, sem o menor indício da fuga que o amor proporcionaria em tanto asfalto, não podia burlar a luz, o pensamento vago era o mundo a esperar lá fora, mistério e problema, ou ao contrário. Tornar o começo visível, organizar do caos a voz, abandonar o corpo ao azar e atravessar a cidade, os quintais baldios, a rua A, o sexo de todas as coisas escondidas detrás da imagem, meio conhaque a evocar do sangue uma primeira cumplicidade perdida entre as pernas e as mesas. A dor suspendia a única explicação através da noite dentro do dia, e C caminhava a passos indivisíveis já dentro do fim. Começá-lo era já o pranto inaugural de uma criança, presença excessiva e precoce pesando sobre o mundo, interminável, ínfimo. Sem saber se já estava fora da palavra que havia aguardado C pela noite, atravessando sempre, pensou numa estranha terceira pessoa, na dor que supostamente envolvia-lhe as mãos usurpando de seu cérebro toda a calma, uma rua atravessada por duas vozes, tristes, vagarosas, amantes lascivas a chamarem-se para fora do exílio, um olhar trazendo, por cima da voz, a fuga da palavra amorosa, pergunta, a palavra dando sobre a luz, eco, baldias putas rindo de escárnio e adoçando misteriosamente o percurso do tempo sobre seu corpo. “A gente nunca acaba de ler, ainda que os livros se acabem, assim como a gente nunca acaba de viver, ainda que a morte seja um fato certo”. Rindo e dizendo, assassinas*. Pensou C que a música nunca deixaria de percorrer, e através dela a poesia, se se deslocasse com o máximo de lenta atenção por todas as pedras da rua.
Como persistir entre a realidade e a ficção que dela derruímos fatos sem linguagem perdendo pela boca adentro a superfície de achar-se e durar: última deriva. A mais próxima. Entre a vida que desperta por nós, falavam, e nós mesmos, intermediários, protótipos, a dor que era preciso suspender ligeiramente, e ouviam, secretos. Breve, o pensamento diante do plano diagonal da visão; insolúvel, a presença através da respiração contínua a verificar a morte, a roubar dela sua forma, ilusão durável ou pressentimento. Com atenção total C subia pelas pedras e pelos dias dentro da noite até esfriarem sob seus pés todos os nomes. Ao seu lado, Y acendia um cigarro e olhava de través pelos carros. Estavam sentados, conversavam, tentando enquadrar a vida em palavras precisas, ou a arte, e é claro, o nada nisso envolvido, a ponta de clareza da qual não fugiam, mesmo que o fizessem só pelo prazer do jogo, enquanto acalorasse o álcool ou se desfizesse no vento a sombra formada pelos dois na calçada. Haveria mesmo um plano em voltar secretamente, rompendo a luz com o próprio corpo, retomado de todo esquecimento? Ou a palavra? Escrever a centésima frase, ir além, lançar as mãos a uma pergunta, e ficar mudo de toda pausa. E recusar, como o mais difícil. Como persistir, dizia ainda a Y no começo, acordado, e Y aguardava através de seu cigarro, observando a imagem se perdendo do outro lado, se aproximando de seu ponto de fuga. Um ponto de inflexão na música brasileira, lembrava-se de G, o dizia a Y, o grande silêncio soprava ao redor do mundo a sua náusea aos homens, o garçom continuava trazendo a cerveja, rompendo o frio com as mãos, o fluxo do intestino, e Y respondia, sim, olhando a voz dentro da voz de Z, a poesia matemática do organismo, respondia sempre fumando, enquanto o a aparição do fogo fazia durar mais essa vida, e este olho que, sem nem atravessar, parou.
Variantes para enaltecer a criação: um silêncio colado no outro: e admitir a voz como o que há de mais plausível.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
ao cair a escuridão através da varanda aberta era quando, a palavra, voltando a suspender-se, se inclinava um pouco acima das mãos, juntando seu peso imenso ao espaço que ora retirava-se, mais além que os corpos, ora subia pela frase incógnita; a poesia sempre nascia escura, cinza quebrada cavando no ar o rompimento, breve estilhaço a deixar a imagem derruída, um pouco acima da cabeça na varanda muda; iniciar dentro do peso da escrita, como uma pequena vida a se dissolver nesta longíssima história, cisma tão antiga através do tema, era voltar à tona, um novo plano sobre a mesma pele; e a palavra olhando, interrompida, bruto animal a nascer antes da madrugada, a pressentir seu clamor inenarrável aconchegando-se sobre a varanda, aquela dança do espaço, retirar-se e ir, não menos longe que os próprios pés através dos anos.
era a imagem que voltava a ver, após o pano e a pausa −
era a imagem que voltava a ver, após o pano e a pausa −
1
Nunca mais escrever
Haver a voz tão longe
Quanto entender-se.
Atentar tão devagar à lembrança,
Eis o que mudou na casa,
De lugar
E tempos em tempos.
Assomar à vida, todos os dias
E todos os dias escrever
Que nunca é mais
Que nada.
2
O tempo da ausência goteja lentamente
Intumescendo planta
Que cresce
Para a morte,
Direto.
3
tão relapso era o caminho,
envolvê-lo era quase nada:
o mesmo caminho relapsamente se apaga
sobre a pele
Nunca mais escrever
Haver a voz tão longe
Quanto entender-se.
Atentar tão devagar à lembrança,
Eis o que mudou na casa,
De lugar
E tempos em tempos.
Assomar à vida, todos os dias
E todos os dias escrever
Que nunca é mais
Que nada.
2
O tempo da ausência goteja lentamente
Intumescendo planta
Que cresce
Para a morte,
Direto.
3
tão relapso era o caminho,
envolvê-lo era quase nada:
o mesmo caminho relapsamente se apaga
sobre a pele
aos cães
a luz incidiu primeiro dando à dor a guia
fez-se minimamente tanta e fez-se bruta
rompeu o chão da casa, alva
alva e única no desterro, próprio fogo e deserto,
a luz incidiu tremendo
de cada fio já solta a relva
repercutiram os animais deitando rastos de orvalho
e compôs-se novamente o caos da noite
na memória confundida a olhar o fogo
o pensamento devastava, ainda
um rosto se mexeu de leve pela cama
sobrava, magnífico,
um palmo acima, num tom, afora
na realidade menos úmida, egressa
eis que a luz caiu ébria pela porta
e a armada de cães, de leve
balançou a cabeça
fez-se minimamente tanta e fez-se bruta
rompeu o chão da casa, alva
alva e única no desterro, próprio fogo e deserto,
a luz incidiu tremendo
de cada fio já solta a relva
repercutiram os animais deitando rastos de orvalho
e compôs-se novamente o caos da noite
na memória confundida a olhar o fogo
o pensamento devastava, ainda
um rosto se mexeu de leve pela cama
sobrava, magnífico,
um palmo acima, num tom, afora
na realidade menos úmida, egressa
eis que a luz caiu ébria pela porta
e a armada de cães, de leve
balançou a cabeça
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